Alberto Magno Ribeiro Montes
Belo Horizonte / MG

 

A mosca

 

           

(Num dia em que eu estava sentindo-me muito só…).

És o único ser que me visita nas horas alegres, em que a tristeza teima por imperar e invadir meu ser. Rondas-me o tempo todo, quase sempre irritando-me. Mas quem sabe, às vezes, só estás tentando consolar-me na dor que sinto, de não ter presente aqueles que desejaria estivessem comigo agora…. Pois todos se afastaram de mim, como se eu  fosse um espectro imundo, ou mesmo um leproso incurável. És totalmente diferente deles, que, só às vezes, me demonstram carinho… Oh, mosca nojenta e deliciosa, que me acaricias! Sugando-me como o néctar suga a flor…Rodeias tudo que é meu neste instante: meus discos, livros, minha música, amigos imaginários…minhas lembranças fotografadas, minha cama improvisada no sofá. Até no baú, cheio de recordações, que não são minhas, tu pousas suavemente e nele repousas.
Bebes no meu copo e não me importo…Pousas no fel do mundo e depois vens trazer-me um pouco desse fel, numa taça cristalina, como se estivesses oferecendo-me o doce mel da vida, que sou obrigado a sorver com avidez, mesmo não querendo.
O que te fez teu amor, que abandonaste para ficar comigo? Será a tua dor maior que a minha? Agora pousas em minha mão, Depois em meu peito, cabeça, enfim, em todo meu ser, invadindo minha privacidade e pensamento.
O primeiro desejo que sinto ao avistar-te, é de matar-te ou expulsar-te de meu íntimo recanto.Mas não adianta matar-te, pois sempre virá outra, para ocupar teu lugar. Lá de onde vens, está repleto de infelizes (pessoas???)… Por que será que sempre ferimos ou matamos aqueles que mais nos querem?
Agora partiste…e sinto tua falta. Não mais será preciso abrir a janela, pois vieste apenas me visitar…Já foste embora…

 

 

 
 
Poema publicado no livro "Contos de Verão"- Edição Especial - Fevereiro de 2017