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Carlos Eugênio Sombra Moreira
Russas / CE

A rosa branca

       As folhagens secas cobrem a área onde já foi um belíssimo jardim. O velho casarão, cenário de uma infância feliz, tornou-se uma recordação adormecida no âmago. Ele está tomado de poeira e insetos indesejáveis. Lembro-me de minha avó regando as orquídeas e as bromélias. As rosas brancas eram seu orgulho. Não chegava uma só visita sequer que aquela senhora de personalidade forte e corpo franzino não a levasse para mostrar a exuberância desse gênero peculiar de rosáceas.
     Na tentativa de encontrar forças para enfrentar os fatos, resolvo circular pela cidade. Quando deixei esse lugar há quase trinta anos, aqui não passara de um humilde povoado esquecido no tempo. Os antigos casebres cederam lugar às novas edificações. As arquiteturas contemporâneas contrastam com as construções de estilo barroco.
     Estaciono o carro na praça central. As pessoas circulam pelas ruas com a pressa de quem mora numa grande metrópole. Caminho entre elas no intuito de ser reconhecido por algum parente, ou quem sabe, por um amigo de infância. A incerteza de como seria a reação dessas pessoas ao me reencontrar, é uma motivação a parte. Mas parece ser uma tentativa em vão. Elas passam por mim com indiferença, certamente estão ocupadas demais com os tormentos do subconsciente. Afinal, os conflitos da alma são as mais árduas e sangrentas guerras da humanidade.
     Antes de retornar ao casarão, passo pela capela para fazer uma oração. Agradeço as feridas cicatrizadas, a coragem de estar aqui depois de tudo, e peço forças para enfrentar as angústias de um passado aparentemente remoto, mas que ainda sobrevive em minha reminiscência.
     Ajoelhar-me defronte à imagem de São Expedito – o santo das causas impossíveis segundo a crença católica. Ao meu lado encontra-se um folhetim com alguns cânticos e uma mensagem que, certamente, não está ali por acaso – Mateus 7;13-14: “Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram.” Exatamente o que ocorreu comigo! Trilhei o caminho mais largo e temeroso, para conquistar tudo que tenho.
     Percebo alguém me olhando admirado. Enfim, fui reconhecido – logo imagino – pois a sensação de ovelha desgarrada, aos poucos já tomava conta do meu ser. Não existe nada pior do que esse vazio ocupando o peito, um sentimento de grão de areia sendo surripiado por um buraco negro esquecido no nada. Levanto-me no intuito de ser acolhido com um longo abraço. O semblante assustado daquele senhor de cabelos grisalhos e olhar sereno, me deixa estático. O reconheço, apesar dos longos anos sem vê-lo. Trata-se do padre Antunes.
     – Estou de volta em busca do meu passado – falo com a voz tremula.
     – Não acredito no que os meus olhos me afirmam. É você mesmo?! Onde esteve por todos esses anos?
     – Compreendo que os questionamentos são inúmeros. Mas antes de quaisquer esclarecimentos gostaria de receber um abraço. Preciso desse aconchego.
     – É claro meu filho, perdoe-me pela indelicadeza! Você há de compreender... – antes que complete o raciocínio, com os olhos lagrimejando, eu o abraço fortemente.
     O padre Antunes prefere me ouvir em confissão. Somente assim, minhas declarações estariam seguras. Atendo o seu pedido e ajoelho-me no confessionário.
     – Estou aqui para recuperar o tempo perdido. Abandonei minha família e partir de encontro aos meus anseios. Nunca quis nem aceitei pertencer a uma terrinha medíocre, de pessoas que ganhavam uns trocados que mal dava para se alimentar. Não deixei passar a oportunidade – nesse momento minha voz fica oscilante, apesar do olhar complacente do religioso.
     – Sua mãe faleceu de tanto desgosto. Ela acreditara que você havia sido morto pelos bandidos que invadira o povoado. O que aconteceu finalmente? – Padre Antunes levanta a voz com ar de reprovação.
     – Eu dei fuga aos assaltantes. O bando estava cercado pelos policiais e jagunços dos fazendeiros da região. Resolvi esconde-los no sótão do velho casarão, com a promessa de receber uma recompensa. Assim que recebi meu prêmio, sai no meio da noite em busca de uma vida nova. Não pense que foi fácil! A saudade queimava o peito, a culpa atormentava minhas noites, mesmo assim, segui em frete. Trabalhei muitos anos num garimpo. Vi muita gente morrer. Levei sorte! Uma só pedra preciosa, somente uma... Foi o suficiente para garantir uma vida afortunada. Mas nunca esqueci as rosas brancas e os cuidados que minha avó tinha com elas.
     – O que o traz até aqui, então? – questiona o padre.
     – O sentimento de culpa. Estou aqui em busca do meu passado, na tentativa de recuperar um amor que sobrevive às intempéries da distância.
     – Como já te falei sua mãe não está mais entre nós. Esse amor a que você se refere, também já tomou novo rumo na vida: casou-se e formou uma família. Tudo que me resta é perdoar os seus pecados, dar-lhe a penitencia e aconselhar que não mecha nessa ferida já cicatrizada.
     Essas declarações me trouxeram a certeza de que não seria possível recuperar o tempo perdido. Restava-me aceitar a realidade, sem lamentações. Afinal, há algumas escolhas que não têm como voltar atrás.
     Retorno ao casarão de tábuas destruídas e piso carcomido. Recolho uma rosa branca que resistia às condições adversas do tempo. Pego a estrada ouvindo Dalva de Oliveira – Estrela do Mar: Um pequenino grão de areia/ Que era um pobre sonhador/ Olhando o céu viu uma estrela/ E imaginou coisas de amor// Passaram anos, muitos anos/ Ela no céu e ele no mar/ Dizem que nunca o pobrezinho/ Pode com ela encontrar// [...].
     Paro na primeira cidade litorânea que encontro no percurso. Sinto a brisa soprar meu rosto. Jogo a rosa branca no mar revolto e fico observando-a ao longe, até que suma nas águas, no balé das ondas... no vai e vem da vida. Até que suma nas águas.

 

 

   
Publicado no livro "Nó em pingo d'àgua" - Edição Especial - Abril de 2015